
Desde a década de 1980 vem se consolidando a construção de uma teoria crítica para a Cartografia. O inglês Brian Harley é visto como uma das principais referencias teóricas para esta construção, porém, Jeremy Cramptom e John Krygier apontam (você pode ler em um dos capítulos do livro Cartografias Sociais e Território) que além de uma transformação teórica, há uma série de contribuições das metodologias e práticas de produção cartográfica.
Fortalecendo assim o entendimento de que os mapas são um instrumento de poder, possuidores de um discurso político que historicamente esteve nas mãos de atores hegemônicos. Porém, com a ascensão desta teoria crítica e, sobretudo, de práticas contra – hegemônicas de produção de informação espacial, tal a ferramenta dos príncipes (como diria Brian Harley) é questionada.
Este papo, a princípio um tanto abstrato, pode ser discutido com profundidade no terceiro episódio da primeira temporada da série Cidade dos Homens. Durante o episódio “Correio”, a ausência de becos, vielas e ruas da favela em um mapa, impedia que os seus moradores fossem atendidos pelo serviço do carteiro. A polêmica leva adolescentes a se tornarem carteiros na favela, porém ao tentarem devolver um carta sem destinatário percebem a papel dos mapas no asfalto e a ausência das favelas nos mapas da cidade.
Neste contexto, Laranjinha e Acerola, fazem um mapa para a favela, porém outras implicações do fazer um mapa aparecem, assim, apontando caminhos participativos e identitários (e de topônimos) para este mapeamento. Por fim, sem deixar spoiler, outra implicação político territorial ainda surge para amarrar tal discussão.
A partir deste enredo, é possível discutir igualdade de direitos na sociedade e a própria cidadania mediada pela representação nos mapas, porém, a ambiguidade de como este mesmo mapa pode passar a servir como instrumento de controle.
Sobre este lugar do poder dos mapas para o status quo, Yves Lacoste já alertava,
“O mapa, talvez a referência central da geografia, é, e tem sido, fundamentalmente um instrumento de poder. Um mapa é uma abstração da realidade concreta que foi desenhado e motivado por preocupações práticas (políticas e militares); é um modo de representar o espaço que facilita sua dominação e seu controle. Mapear… é servir aos interesses práticos da máquina estatal” (LACOSTE; 1989)
Essa hora é sempre bom pensar, à que(m) serve o mapa que você está fazendo? Este é um pressuposto no Quebrada Maps na busca por uma cartografia contra – hegemônica. Conversa que avançamos um pouco mais no mestrado do Wellington, que alinhou os primeiros passos do QMAPS entre 2013 e 2016. Para baixar é só dar um pulo na nossa página de downloads.
